Continua a merecer rigoroso questionamento a assertiva do governo federal de que o Brasil teria, enfim, encontrado o caminho definitivo do desenvolvimento e que a máquina do crescimento nunca esteve tão bem “nos trilhos” como agora. Independentemente da estratégia política ou do marketing institucional que acompanha programas de obras e ações assistenciais, a realidade mostra que soluções pontuais não resolvem problemas estruturais — muitas vezes apenas os mascaram, empurrando suas consequências para o futuro e, em certos casos, agravando-as.
Crescimento no varejo e fragilidade no atacado
Ainda que o discurso oficial insista na ideia de que o País está definitivamente na rota do crescimento, a percepção crítica aponta que o governo, por vezes, acerta no varejo e erra no atacado. Falta ajustar a velocidade e a direção da locomotiva econômica para que ela, de fato, chegue ao destino necessário: um desenvolvimento sustentável, equilibrado e de longo prazo.
Segurança pública e ambiente de negócios sob tensão
Não parece coerente afirmar que um país esteja plenamente nos trilhos quando sua população presencia, de forma recorrente, cenas que exigem reflexão profunda. Durante o lançamento de obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) em áreas como o Complexo do Alemão (R$ 493 milhões), Manguinhos (R$ 232 milhões) e Rocinha (R$ 176 milhões), no Rio de Janeiro, foi necessária uma ampla operação de segurança, com ocupação prévia das áreas e presença de forças federais, incluindo atiradores de elite, para garantir a integridade da comitiva presidencial.
No mesmo período, ações de vandalismo promovidas por grupos de movimentos sociais atingiram centros de pesquisa de multinacionais, instalações industriais e faixas de domínio ferroviário da Companhia Vale do Rio Doce, causando prejuízos relevantes à exportação de minério de ferro. Canteiros de obras de hidrelétricas também foram invadidos, resultando em atrasos em projetos estratégicos para a geração de energia.
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Esses episódios fragilizam o ambiente de negócios, afetam a confiança de investidores e colocam em xeque a capacidade do País de atrair capital produtivo de forma consistente.
Saúde, educação e infraestrutura ainda como gargalos
Outro sinal de alerta está no comprometimento da saúde pública, com o retorno de doenças que se acreditava erradicadas desde os tempos das campanhas sanitárias lideradas por Oswaldo Cruz. Educação, saneamento e infraestrutura seguem apresentando distorções estruturais, que, se não forem corrigidas com políticas consistentes, podem se tornar vulnerabilidades de difícil reversão no futuro.
Apesar dos avanços pontuais do PAC, as dificuldades para acelerar investimentos em infraestrutura permanecem evidentes, limitando ganhos de produtividade e competitividade.
PIB cresce, mas consumo lidera o avanço
É com certo otimismo que se observa o anúncio do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de 5,4% em 2007. O PIB brasileiro atingiu R$ 2,55 trilhões naquele ano, enquanto o PIB per capita cresceu 4% acima da inflação, alcançando R$ 13.515,00.
No entanto, a análise econômica revela um dado que merece atenção: o consumo das famílias respondeu por 60,9% desse crescimento. Trata-se de um consumo fortemente impulsionado pela ampla oferta de crédito, com prazos cada vez mais longos para pagamento.
Essa estratégia pode representar uma faca de dois gumes, sobretudo para as camadas de menor renda, que ficam mais expostas ao endividamento excessivo em cenários de desaceleração econômica ou elevação dos juros.
Desenvolvimento sustentável exige mais do que crescimento pontual
Os indicadores positivos não devem ser ignorados, mas também não podem ser analisados isoladamente. Crescimento econômico sustentado exige planejamento de longo prazo, fortalecimento institucional, investimentos contínuos em infraestrutura, educação, saúde e segurança, além de um ambiente estável para negócios e inovação.
Sem esses pilares, o risco é que o crescimento atual se revele transitório, incapaz de sustentar um verdadeiro projeto nacional de desenvolvimento.



