A DCEMtech, startup dedicada ao desenvolvimento de soluções para análise de cimento e aditivos, numa parceria entre Fine Instrument Technology (FIT), empresa brasileira especializada em tecnologias de Ressonância Magnética Nuclear (RMN), e pesquisadores do Laboratório de Espectroscopia de Alta Resolução por Ressonância Magnética Nuclear (LEAR), do Instituto de Física de São Carlos – USP (IFSC/USP), e do Laboratório de Microestrutura e Ecoeficiência de Materiais de Construção (LME), da Escola Politécnica da USP (Poli-USP).
A startup começou a operar em janeiro e tem como proposta reduzir o tempo necessário para obter informações sobre o desempenho do cimento, além de ampliar a capacidade de realização dos ensaios e facilitar o gerenciamento dos dados gerados pelos laboratórios e pelas indústrias.
Os ensaios de resistência são fundamentais para o controle de qualidade desses materiais e para o atendimento às normas técnicas utilizadas pelo setor. Nos métodos convencionais, o comportamento das amostras é acompanhado ao longo de períodos que podem chegar a 28 dias. Além de exigir tempo e um volume significativo de material, esse processo restringe a quantidade de dados obtidos e, consequentemente, a capacidade de acompanhar com maior precisão as características e o desempenho dos materiais.
“A proposta da DCEMtech é complementar os procedimentos convencionais com uma ferramenta digital capaz de acelerar a análise e ampliar significativamente a frequência dos testes. A tecnologia dispensa o uso de areia, pode multiplicar por até 15 vezes a capacidade de realização das análises e permite obter resultados e realizar previsões já nas primeiras idades de hidratação do cimento. Com isso, também é possível organizar e gerenciar os dados com muito mais agilidade, ampliando a capacidade de acompanhar o desempenho dos materiais”, afirma Pedro Abrão, CEO da DCEMtech.
Hoje, a indústria realiza, em média, dois a três ensaios de resistência por dia, gerando centenas de resultados ao longo do ano. Embora esse volume seja relevante para o controle de qualidade convencional, a frequência ainda é baixa para uma abordagem digital baseada em Inteligência Artificial, que depende de dados mais frequentes e sistematizados para identificar padrões e acompanhar o comportamento dos materiais. Ao digitalizar o processo, a indústria passa a obter resultados em menos tempo e a organizar os dados dos laboratórios de forma contínua, criando uma base para análises mais abrangentes e precisa
Ciência aplicada
O desenvolvimento da solução começou no ano passado, a partir de estudos conduzidas por pesquisadores ligados à Engenharia Civil da USP – LME e ao IFSC- LEAR, sob direção dos professores Vanderley M. John e Tito Bonagamba, coordenadores dos respectivos laboratórios. O objetivo era investigar técnicas capazes de reduzir o tempo e os custos associados aos ensaios de resistência. Para Vanderley John, a criação da startup representa mais um exemplo de conexão entre universidades e empreendedores. “Esta parceria é um dos pilares fundamentais para a entrega de valor à sociedade e para o desenvolvimento social e econômico, afirma. Na visão de Bonagamba a indústria e a sociedade brasileira “podem dar um salto muito grande se aproveitarem adequadamente esse conhecimento gerado na academia com sua transferência para empreendedores e colaboradores”, complementa.
A parceria com a FIT levou a pesquisa para a etapa de desenvolvimento de produto e criação de uma empresa. A DCEMtech iniciou suas operações após captar cerca de R$ 600 mil, com recursos dos sócios e investimentos da Embrapii, do Sebrae e da USP.
Para o CEO da FIT, Daniel Consalter, a Startup faz parte de uma estratégia tecnológica de expansão da plataforma de RMN para além do agronegócio. “A criação da DCEMtech representa um passo importante na estratégia da FIT de ampliar o uso da ressonância magnética nuclear para além da agroindústria. Temos desenvolvido a tecnologia de RMN como uma ferramenta cada vez mais acessível e aplicável a diferentes setores industriais. A entrada em cimento mostra o potencial dessa tecnologia para responder a desafios específicos de outros mercados, combinando ciência, engenharia e desenvolvimento de produtos”, afirma o CEO da FIT.
Mercado
A DCEMtech iniciou a comercialização da tecnologia ainda nos primeiros meses de operação. A startup firmou contrato com a Associação Brasileira de Cimento Portland (ABCP) disponibilizando um equipamento para análises de empresas associadas.
O modelo de negócios prevê além do serviço de análise, a venda e a locação dos equipamentos. A estratégia é posicionar a RMN como uma ferramenta complementar e essencial aos ensaios normativos. “O serviço que estamos oferecendo é inédito no segmento. Não existe outra empresa com essa proposta de análise. Mas não queremos substituir o ensaio normativo. Trata-se de uma ferramenta adicional para a indústria”, afirma Pedro Abrão.

A empresa pretende usar o mercado brasileiro como base para uma expansão internacional a partir de 2027, inicialmente para outros países da América Latina, onde já iniciou a formar sua rede de parceiros comerciais, a partir da experiência de sucesso da FIT neste mercado. A meta é fechar pelo menos sete contratos no próximo ano.
A entrada em um setor caracterizado por processos de produção e controle de qualidade consolidados é um dos desafios da nova empresa. A expectativa da DCEMtech é que a adoção ocorra de forma gradual, à medida que fabricantes incorporem a tecnologia aos procedimentos já utilizados para acompanhamento da qualidade e desenvolvimento de novos produtos.



