A expansão dos investimentos chineses em infraestrutura e mineração na África entrou em uma fase de maior cautela diante da queda dos preços das commodities, da instabilidade política em diferentes países e do aumento dos riscos associados a grandes projetos.
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Na Guiné, trabalhadores chineses e guineenses atuavam lado a lado na construção de um estádio com capacidade para 50 mil pessoas, empreendimento estimado em US$ 50 milhões e apresentado como mais um símbolo da antiga relação entre os dois países.
A parceria remonta ao fim da década de 1950, quando a Guiné enfrentava isolamento político e dificuldades econômicas. Ao longo dos anos, diferentes projetos passaram a representar essa aproximação. O principal interesse do país africano, no entanto, era avançar em acordos bilionários capazes de viabilizar obras de infraestrutura em troca de acesso às suas grandes reservas minerais.
Guiné busca infraestrutura em troca de acesso a minerais
A Guiné possui importantes reservas de bauxita e minério de ferro, recursos estratégicos para cadeias industriais globais. O governo buscava transformar esse potencial mineral em investimentos para ampliar a infraestrutura nacional.
O cenário internacional, porém, passou a dificultar novos acordos. Com a queda dos preços das commodities e o agravamento da instabilidade em alguns países africanos, empresas e autoridades chinesas começaram a adotar critérios mais rigorosos para projetos de grande porte.
“A situação política não é muito estável”, afirmou à época Huo Zhengde, então embaixador chinês na Guiné, ao explicar a hesitação em comprometer bilhões de dólares com novos investimentos. “Os mercados internacionais não estão favoráveis.”
A avaliação refletia uma mudança relevante na estratégia chinesa para a África. Após anos de rápida expansão, os projetos passaram a ser analisados com maior atenção à estabilidade econômica, à segurança política e à viabilidade financeira.
China adota maior cautela em projetos africanos
Durante o ciclo de valorização das commodities, a China ampliou sua presença em países africanos ricos em petróleo, cobre, estanho, minério de ferro, madeira e outros recursos naturais.
Em muitos casos, empresas chinesas ocuparam espaços considerados excessivamente arriscados por grupos ocidentais. O modelo ganhou força por combinar acesso a recursos minerais com financiamento e construção de rodovias, ferrovias, barragens, hospitais e outros ativos de infraestrutura.
A abordagem também se diferenciava das políticas tradicionalmente associadas a instituições financeiras e governos ocidentais, que frequentemente vinculavam assistência e financiamento a condições econômicas, institucionais e políticas.
Com a deterioração do cenário econômico global, porém, essa disposição para assumir riscos começou a mudar.
“Vimos no passado recente companhias chinesas investindo em países pelos quais ninguém se interessava”, afirmou Philippe de Pontet, analista do Eurasia Group. “Isso pode estar mudando.”
Acordo bilionário no Congo enfrenta incertezas
Um dos principais exemplos dessa estratégia foi anunciado em 2007, quando a China estruturou um acordo de aproximadamente US$ 9 bilhões com a República Democrática do Congo.
O modelo previa acesso a reservas de cobre, cobalto, estanho e ouro em contrapartida à construção de rodovias, escolas, barragens e ferrovias. O objetivo era contribuir para a reconstrução da infraestrutura de um país profundamente afetado por anos de conflitos.
A queda dos preços das commodities, entretanto, alterou as condições econômicas do acordo e enfraqueceu a posição de negociação congolesa.
Ao mesmo tempo, o país continuava dependente de apoio financeiro internacional e enfrentava dificuldades relacionadas à dívida, à instabilidade política e à fragilidade econômica.
Modelo de infraestrutura por recursos naturais é colocado à prova
A estratégia chinesa na África ganhou projeção por meio de acordos que vinculavam grandes obras de infraestrutura ao acesso futuro a petróleo e minerais.
Em Angola, esse modelo contribuiu para ampliar a presença chinesa no setor de infraestrutura e garantir acesso às reservas de um dos maiores produtores de petróleo do continente.
A parceria foi apresentada como exemplo de uma relação de benefício mútuo, especialmente em um país que precisava reconstruir sua infraestrutura após décadas de guerra civil.
A crise econômica global, contudo, expôs riscos do modelo. Muitos desses acordos funcionavam, na prática, como financiamentos lastreados em receitas futuras de commodities.
Com a queda dos preços internacionais, governos africanos passaram a enfrentar o risco de assumir grandes compromissos financeiros sem a mesma perspectiva de receitas prevista no momento da assinatura dos contratos.
Bauxita e minério de ferro colocam Guiné no centro da disputa por recursos
A Guiné reúne importantes depósitos minerais e chegou a ser descrita por colonizadores franceses como um “escândalo geológico” devido à abundância de recursos naturais.
Apesar de décadas de mineração e da geração de receitas bilionárias associadas ao setor, o país permanecia entre os mais pobres e menos desenvolvidos da África.
O governo buscava utilizar o interesse chinês para ampliar a infraestrutura e transformar a riqueza mineral em investimentos estruturantes.
Segundo Ibrahima Sory Diallo, então economista sênior do Ministério das Finanças da Guiné e defensor da entrada de capital chinês, o cenário havia mudado.
“Os chineses mudaram sua estratégia. Eles não vão injetar US$ 5 bilhões em um país instável e em um clima de mercado incerto”, afirmou.
Projeto de hidrelétrica de US$ 1 bilhão perde força
Entre os empreendimentos afetados estava uma hidrelétrica estimada em US$ 1 bilhão, considerada por autoridades guineenses um projeto estratégico para ampliar a oferta de energia.
A China, no entanto, recuou diante das condições econômicas e políticas.
“A represa não é um presente; é um investimento”, afirmou Huo Zhengde. “É isso que benefício mútuo significa.”
A declaração sintetizava a mudança de percepção sobre a presença chinesa na África: grandes projetos de infraestrutura dependiam de retorno econômico, segurança institucional e capacidade de pagamento.
Relações entre China e África entram em nova fase
O comércio entre China e África havia ultrapassado US$ 100 bilhões em 2008, depois de representar menos de US$ 10 milhões nos anos 1980, segundo os dados citados à época.
A rápida expansão fortaleceu a China como parceiro econômico estratégico do continente e ofereceu a diferentes governos africanos novas alternativas de financiamento e investimento.
A crise global, porém, mostrou os limites da expansão baseada em grandes projetos, commodities e elevada exposição a riscos políticos.
Embora a busca chinesa por recursos naturais não tenha sido interrompida, empresas estatais passaram a demonstrar maior seletividade, priorizando países e projetos com condições econômicas e institucionais consideradas mais estáveis.
O movimento marcou uma nova etapa das relações entre China e África, na qual infraestrutura, mineração e acesso a recursos naturais continuaram centrais, mas passaram a ser avaliados sob critérios mais rigorosos de risco e retorno.
Fonte: Estadão



