A Sabesp está implementando pela primeira vez em uma estação de tratamento de esgoto (ETE) com a tecnologia Nereda em substituição ao sistema tradicional de lodo ativado. O método é uma inovação no tratamento de esgoto e elimina uma etapa do antigo processo.
A tecnologia está sendo introduzida junto com a ampliação e modernização da ETE Parque Novo Mundo, na zona norte de São Paulo, às margens do Rio Tietê. Com a expansão, a estação, que foi inaugurada em 1998, passará a capacidade de tratamento dos atuais 2,5 m3/s para 6,2 m3/s.
A previsão da Sabesp é que até novembro deste ano a ETE já possa tratar 4,2 m3/s, e em abril de 2027 alcance a capacidade de 6,2 m3/s. A obra hoje está no pico, com cerca de 500 trabalhadores. O investimento no projeto é de R$ 1 bilhão. O consórcio construtor é formado pela Passarelli, Engeform, Enfil e Consbem, e a gerenciadora é a JHE.
Rafael Rodrigues Asse Reis, engenheiro da Sabesp, explicou à revista O Empreiteiro, em visita à obra, que a ampliação eleva a capacidade para tratar o esgoto de quase 3 milhões de pessoas em São Paulo e Guarulhos. “Vai ser fundamental para a limpeza do Rio Tietê”, diz. O projeto faz parte do programa Integra Tietê de despoluição do rio.
O desafio das obras, segundo o engenheiro, é fazer acontecer ao mesmo tempo em que a estação está em operação. “Somado a isso temos o problema crônico de escassez de mão de obra na construção civil, o que fez com que adotássemos maior grau de industrialização na implantação do projeto”, afirma.
“O motivo principal de se escolher a tecnologia Nereda é que ela ocupa menos área física na implantação – se adotasse o processo tradicional do lodo ativado, não haveria espaço para a ampliação desejada. Aqui a gente tem um problema sério de área. Com o processo Nereda se consegue tratar uma vazão maior num espaço menor”, explica. “Além disso, tem o consumo menor de energia, não usa químicos e gera menor produção de lodo. Tem um bom opex”, acrescenta.
A principal característica do sistema Nereda é que ele não utiliza os decantadores secundários, estrutura de porte e essencial para o sistema de lodo ativado. A tecnologia usa no tratamento de esgoto a biomassa granular aeróbia e faz a remoção de matéria orgânica, nitrogênio e fósforo num único tanque. O processo Nereda foi desenvolvido na Universidade Técnica de Delft, na Holanda, há cerca de 30 anos, e chegou no Brasil há pouco tempo.
Sobre as obras de ampliação e modernização da ETE Parque Novo Mundo, Rafael Rodrigues conta que ela começa no tratamento preliminar. A estação recebe contribuições de interceptores, que correspondem ao esgoto proveniente da Zona Leste e Zona Norte de São Paulo e parte de Guarulhos.
O engenheiro explica que o primeiro grau de tratamento da ETE é o gradeamento grosseiro, responsável por remover sólidos, como plástico, madeira e areia, e fibras como cabelo. “Esta parte inicial já demandava uma recuperação estrutural, principalmente na troca de equipamentos. Assim, a gente está fazendo as adequações necessárias para receber os novos equipamentos no lugar dos antigos.
Do gradeamento grosseiro, o esgoto é bombeado para a elevatória, que depois segue para a chamada grade média, que também tem objetivo de remover sólidos grosseiros e fibras, e continua em direção às peneiras rotativas e caixa de areia.
Os equipamentos preliminares da ETE são fabricados pela alemã Huber. Duas das três grades grossas a serem implementadas serão em breve instaladas em dois dos três canais de chegada do esgoto.
“Na caixa de areia estamos instalando um sistema de desaneração lamelar, que além de remover a areia, retira gordura”, destaca Rafael. O sólido removido nesta etapa preliminar da ETE é encaminhado para caçambas, para ser depois levado para o aterro sanitário por caminhão.
INFLUENT BUFFER
A próxima fase em obras, depois da etapa preliminar, é do influent buffer (tanque de efluente bruto), que tem a função de equalizar a vazão e distribuir o esgoto para os reatores de Nereda nos quais se dão o tratamento dos efluentes. A área de influent buffer está sendo construída no local onde funciona os tanques de aeração do sistema, que será desativado.

Atualmente, explica o engenheiro da Sabesp, dois tanques de aeração (ainda operando no antigo sistema) dos três existentes serão transformados em quatro reatores de Nereda. O terceiro tanque funcionará como distribuidor da vazão de esgoto, proveniente da etapa preliminar para os reatores.
Neste tanque de vazão, estruturas pré-moldadas foram assentadas para suportar 15 bombas submersas da Andritz, com capacidade de bombear 1,1 mil l/s cada uma, para levar o esgoto para os reatores.
OS REATORES NEREDA
Estão sendo instalados na ETE um total de 16 reatores de Nerada, sendo que 12 são estruturas novas circulares e quatro reaproveitam a estrutura existente dos tanques de aeração.
Nos 12 novos reatores, a parte civil já foi concluída e a parte hidromecânica está em fase de finalização. As paredes circulares dos reatores foram feitas com placa de pré-moldados protendidos especiais fornecidos pela Fortanks.
Cada placa possui 7,30 m de altura e pouco mais de 2 m de largura. Segundo Rafael, a adoção do pré-moldado acelerou a obra e 10 dias foi o tempo que as paredes de cada reator foram erguidas.
A preocupação maior é com a resistência e a estanqueidade, e as paredes pré-moldadas tinham que atender a essas especificações”, explica. Uma argamassa especial foi aplicada para fechamento das juntas das paredes do reator, para finalizar a estanqueidade. No total, 192 estacas hélice contínua de aproximadamente 16 m foram cravadas nas fundações de cada reator.
CONCRETAGEM E MONTAGEM
A concretagem da laje de fundo dos reatores – feita antes de subir as paredes do reator – foi um evento a parte, de acordo com o engenheiro. Foram 1,1 mil m3 de concreto por laje, com 50 cm de espessura.
“Foi desenvolvido um traço especial para esse concreto, além da impermeabilização. Ele não tem junta. É um pano só. Três bombas de concreto fizeram o serviço ao mesmo tempo em cada laje. Foram aproximadamente 180 caminhões betoneira por concretagem. Para cada fundo de reator, foram dedicados de 7 a 9 horas de atividade”, relata.
A montagem hidromecânica dos reatores, conduzida pela Metalica Montagens, conta com uma série de tubulações, a maioria em aço inox. Peças pré-moldadas, fornecidas pela Prebmol, compõem o topo do reator como elementos da estrutura. As tubulações são de fabricação da B&F Dias.
De forma geral, as tubulações do Nereda foram posicionadas por guindastes, de baixo para cima, e se desdobram para atender as três fases sequenciais do processo: alimentação do reator, aeração e sedimentação. Uma sala montada no centro de comando da ETE controlará por meio do software Nereda Controler as operações do reator.
Do reator, o efluente tratado vai para a galeria para ser despejado no rio Tietê. Já o lodo remanescente, Rafael explica que vai para o tanque sludge buffer (tanque temporário de lodo), ou se tiver necessidade, segue para o adensador de lodo, antes de ser enviado para o lododuto.
O lododuto de PEAD, com 630 mm e cerca de 7 km, se conecta a um interceptor, que encaminha o resíduo para tratamento na ETE Barueri.
Antes do lododuto, o material era encaminhado para uma área adjacente da ETE Parque Novo Mundo, para desidratação e secagem para, depois, ser encaminhado ao aterro sanitário – mas a área está sendo desativada pela Sabesp.
Os atuais decantadores secundários que funcionam para o sistema de lodo ativado serão desmobilizados. Uma subestação de energia está sendo montada para atender os reatores de Nereda e o influente buffer.




