Com 34 frentes de obras simultâneas, 2.200 trabalhadores em dois turnos nos 8km – dos 16 totais em um trecho de desnível de quase 400 m de altura – a Nova Serra das Araras, finalmente, começa deixar de ser o maior gargalo logístico centenário entre Rio e São Paulo. As obras deste trecho da Rodovia Presidente Dutra (BR-116), que completaram dois anos em abril deste ano, chegaram a 70% de avanço físico e tiveram sua primeira fase entregue em junho, concluindo 8 dos 24 viadutos previstos – 14 na pista de subida e 10 na de descida.
Construída em 1829, a pista de descida da Via Dutra deverá ter sua modernização entregue em 2029. Já a de subida, que estava prevista para fevereiro de 2028, será antecipada para o primeiro semestre de 2027. Quando concluída, a obra permitirá que a velocidade do trecho passe dos atuais 40 km/h para 80 km/h, facilitando o tráfego de quase 390 mil veículos/mês. A expectativa é reduzir o tempo de viagem em até 25% no sentido São Paulo e em até 50% no sentido Rio de Janeiro. O investimento total na Nova Serra das Araras totaliza R$ 1,5 bilhão, via financiamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
A revista O Empreiteiro visitou, com exclusividade, as obras do trecho de subida e conheceu de perto as dificuldades da equipe da RioSP, empresa da Motiva, responsável pela administração da Via Dutra. “É um grande desafio fazer essa obra pela complexidade dela em apenas 8km, onde temos um desnível de 378 metros. Só para ter ideia, o pão de açúcar tem 400 metros. No entanto, nós temos esse desafio com o trânsito operando ao mesmo tempo, então precisamos ter um controle de segurança em um ambiente de serra”, destacou Virgilius Moraes, gerente da obra de implantação da Nova Serra das Araras, que recebeu a equipe de reportagem.

“Para seguir com as obras construímos uma pista de desvio para o trânsito dos equipamentos. Transformamos um trecho do acostamento da via antiga em uma faixa reversível, como uma pista de serviço pelos 8km onde só trafegam os veículos da obra. Assim, vamos alternando e executando cada trecho. Temos que liberar um tráfego, para intervir no outro, não podemos parar o trânsito”.
Todas as atividades ainda estão concentradas na pista de subida, sendo todos os serviços de engenharia executados pela contratada EGTC. Ao todo são: 93 obras de contenção (36 somente nas pistas), construção de 24 novos viadutos, quatro faixas de rolamento por sentido, duas rampas de escape, três passarelas e oito pontos de ônibus. “Nós temos uma central de britagem, duas centrais de concreto, uma usina de solo e outra de asfalto. Temos também um pátio para a fabricação das vigas pré-moldadas que padronizamos para levá-las à rodovia”, contou o gerente.
FABRICAÇÃO E LOGÍSTICA DE VIGAS DE 41,80 M
A Nova Serra das Araras demanda 453 vigas que estão sendo fabricadas no próprio pátio. Cada uma contém até 120 toneladas, sendo a maior delas com 41,80 m de comprimento e 2,40 de altura. Da produção até a entrega de cada viga, e ser transportada para a rodovia, são necessários até três dias.

“Cada viga é testada através de um cabo tensionado para vermos a resistência antes dela ser carregada. Enquanto uma está sendo concretada, estamos testando outra. Então, a produção geralmente é uma viga por dia, mas, até ela ficar realmente pronta para ir para a rodovia, são três dias. Quando finalizada, utilizamos duas treliças lançadeiras que fazem o transporte. Para a logística, o batedor vai na frente e fecha parte da pista até a disposição da viga da carreta na rodovia. Pretendemos subir de três a quatro vigas por dia para conseguir concluir a obra da pista de subida até ano que vem”, explicou Virgilius.
DETONAÇÕES E REAPROVEITAMENTO DAS ROCHAS
As detonações, que acontecem de segunda a quinta, de 13h às 15h, e também aos sábados no mesmo horário, deverão encerrar ainda em 2026. Todo o material retirado é beneficiado na própria central de britagem, e é 100% reaproveitado na obra. São em média 600 metros cúbicos de rocha destinados para a central.

“Usamos este material no reforço de subleitos, no pacote de pavimentos – tanto brita tratada com cimento, quanto brita graduada melhorada com cimento. Somente no TS (Talude de Subida) 11, que é o nosso maior talude em volume, foram removidos 300 mil metros cúbicos de solo e rocha. Todo o material é reaproveitado”.
DAS 93 CONTENÇÕES, 36 SÃO NAS PISTAS
Segundo Virgilius, grande parte das contenções são realizadas com solo grampeado. Ao todo, serão necessárias 93 obras de contenções, sendo 36 delas nas pistas. O maior talude em altura é no trecho CD (Contenção de Descida) 19, que possui 80 metros de altura.
“No CS (Contenção de Subida) 05 por exemplo, temos um corte misto. Começou com terraplenagem e com revestimento vegetal, depois passamos pelo solo grampeado, e, na parte inferior, utilizamos uma cortina atirantada. É que na serra, conforme o terreno vai descendo, temos que aumentar a inclinação da contenção para garantir a plataforma da pista embaixo”.
Já sobre os 24 viadutos em construção, o maior deles está no CD 19, com 453 m de extensão, contendo 10 vãos e cerca de 30 m de altura.

CUIDADOS AMBIENTAIS
A Serra das Araras é um setor da Serra do Mar situado entre os municípios de Piraí e Paracambi, no estado do Rio de Janeiro, coberto por vegetação e animais silvestres. Para a preservação da região durante as obras, foi contratada uma equipe especializada em proteção ao ambiente.
“A equipe é formada por biólogos, engenheiros florestais e até veterinários que vão na frente, antes da atuação dos trabalhadores da obra. Até o momento, nós tivemos 297 animais observados e 164 resgatados, além de 450 indivíduos arbóreos (espécies de mudas) registrados”, detalhou o gerente.
“CANTEIRO ESCOLA” PARA MULHERES
Dentre os 2.200 trabalhadores, mais de 1.600 estão no segundo trecho da obra no período diurno. O diferencial da equipe da Nova Serra das Araras é que a obra está também formando profissionais mulheres através de um programa chamado Canteiro Escola. A iniciativa é realizada em parceria com a Prefeitura Municipal de Paracambi, Firjan, EGTC e RioSP, através da Motiva.
Os cursos de qualificação profissional do Canteiro Escola são ministrados por professores da Firjan SENAI. Do total de 40 inscritas, 30 alunas concluíram a formação. Com a qualificação, todas as participantes foram contratadas para atuar na obra da Nova Serra das Araras como carpinteiras e pedreiras.




