Ao contrário das barragens, as pilhas de rejeito/estéril filtrado têm sido cada vez mais adotadas como uma alternativa moderna e mais segura às formas convencionais de depositar rejeitos, devido ao menor risco de ruptura por liquefação. Entre os profissionais, é conhecida como um tipo de “barragem 2.0”, uma solução que consiste em filtrar e desaguar o rejeito, transformando-o em uma massa sólida disposta em pilhas. Ou seja, essas estruturas acomodam um material que é drenado e empilhado a seco e, por isso, mais seguras.
Um exemplo que tem se destacado pelo seu tamanho – 300 hectares de área e 230 m de altura – com capacidade de disposição de aproximadamente 317 milhões de metros cúbicos de rejeitos filtrados e estéril, é o Projeto Tamanduá, da Vale, com diversas áreas sendo preparadas para receber pilhas de rejeitos/estéril, que vem sendo construída como suporte à operação do Complexo de Brucutu por um horizonte estimado de 30 anos. O empreendimento começou a ser construído em 2024 e prevê receber rejeito filtrado e estéril da Mina de Brucutu em 2028. Será o maior conjunto de pilhas do gênero no mundo.
Localizado em São Gonçalo do Rio Abaixo (MG), o projeto foi desenvolvido para assegurar a longevidade operacional do complexo. A revista Minérios e Minerales visitou, com exclusividade, a área do Tamanduá que engloba diversas soluções e tecnologias.
“Brucutu está voltando a atingir a capacidade nominal instalada, arredondando 30 milhões de minério de ferro ao ano, o que equivale a 10% da produção total da Vale. Com esse avanço, e depois do fato ocorrido em Brumadinho o qual as barragens foram limitadas, todas as operações tiveram que se adaptar e reformular metodologias para viabilizar a produção para gerar ao invés do rejeito úmido, o filtrado. Então, estamos fazendo a fundação dessa grande estrutura, juntamente com o acesso dos caminhões autônomos fora de estrada, para que, em 2028, possamos começar a empilhar rejeito no Tamanduá, que será a maior pilha de estéril do mundo”, destacou Guilherme Ladeira, engenheiro responsável pelo planejamento das obras do Programa PDER Tamanduá, que acompanhou a equipe da revista Minérios durante a visita.
TAMANDUÁ VAI EMPILHAR 317 MILHÕES M³ DE REJEITOS/ESTÉRIL
O Tamanduá se divide em duas fases. A primeira foi aprovada em junho de 2024 e já concluiu alguns serviços iniciais, tais como: a realocação da linha de transmissão, a preparação da área do Tamanduá e o detalhamento da nova subestação elétrica. Atualmente, o projeto está com 1.200 trabalhadores, 250 máquinas em operação e alcança mais de 37% de evolução física, com a conclusão da fase 1 e a implementação da estratégia chamada de Early Involvement. Esta iniciativa consiste na construção da estrada oeste, que a construtora Fidens está executando. Esse acesso abrange 3 km e estava previsto para 2031, mas foi antecipado para janeiro de 2028. A estrada conectará a planta de tratamento mineral ao projeto Tamanduá, para que os caminhões autônomos não tripulados a utilizem para o transporte de material destinado à pilha. Segundo a Vale, com essa integração, a disposição antecipada de rejeitos e estéril poderá ocorrer no primeiro trimestre de 2028.

Consolidando a integração, o programa avança para a segunda fase que amplia a infraestrutura. Entre as entregas estão a nova subestação, a pilha Feijão, a expansão da oficina e o complexo administrativo. Também serão adquiridos 50 equipamentos de frota para reforçar a operação.
MONITORAMENTO EM TEMPO REAL E NOVAS TECNOLOGIAS
Durante a visita, Guilherme Ladeira mostrou o Centro de Controle Operacional do programa, instalado em uma área sob administração da Fidens, que monitora toda a frota na construção da estrada oeste. Os equipamentos são georreferenciados, gerando um banco de dados em um sistema de gerenciamento, não sendo necessário equipe em campo para fazer a leitura dos processos de cada área.
“Nossos caminhões são embarcados com um software instalado que é monitorado via GPS e isso gera dados para fazermos o acompanhamento. Cada início de atividade definimos para onde esses equipamentos irão, e, conforme eles vão trabalhando, vão gerando dados para sabermos se existe algum gargalo ou se equipamento que precisa abastecer, etc. Assim eles trabalham o máximo e com menos perda possível”, explicou Ladeira, detalhando: “Além disso, existe um tablet que fica embarcado no caminhão, e a cada etapa que ele percorre, gera dados que vão para nossa plataforma, a qual calcula as estatísticas do projeto como: os principais motivos de parada, atrasos, consumo de combustível, tempo médio de fluxo de cada um dos ciclos de obras, volume médio transportado e etc”.
Esse sistema, que começou a ser implementado na frota do Tamanduá em 2023 e integra todos os equipamentos – qualquer tipo de máquina – é chamado de Minetrack. Foi fornecido pela empresa Sodep e é administrado em parceria com a equipe da Fidens. “Essa plataforma nos ajudou a obter a economia de 18% no consumo de diesel da frota, o que contribui com a nossa meta de redução na emissão de gás carbônico”, acrescentou o engenheiro.
Outra tecnologia implementada, desta vez para a coleta de material nos ensaios para o controle da terraplanagem, é o uso do densímetro elétrico. “Para cada camada de compactação na terraplanagem, ela precisa ser controlada e ensaiada, então para cada ensaio, tínhamos uma equipe que cravava um cilindro em um terreno e levava o material para o laboratório para gerar resultados. Isso demandava cerca de uma hora. Hoje, com o densímetro, reduzimos para 10 minutos. Além do tempo, tivemos a eliminação de riscos de ter colaboradores por mais tempo em campo”, explicou Ladeira, completando: “Também não usamos equipe de topografia para ficar conferindo os processos geométricos; fazemos isso através de drones com voos semanais e que geram dados para processarmos com Inteligência Artificial (IA) e assim conseguirmos acompanhar a evolução do projeto”.
INICIATIVAS SUSTENTÁVEIS
Além das tecnologias para otimizar as obras, o programa executa uma série de ações sustentáveis. Segundo Ladeira, a estrada oeste, por exemplo, está sendo construída com material proveniente do próprio rejeito filtrado, utilizando o como aterro na própria obra.
Outra iniciativa é o uso de um biodigestor que transforma resíduos dos restaurantes e do complexo administrativo em adubo. Esse material está sendo reaproveitado em obras, como na revegetação de taludes, além de outras destinações dentro do próprio projeto.
Segundo João Carlos Araújo, gerente Geral dos Projetos Corredor Sudeste, o Programa Tamanduá é um dos maiores projetos da Vale, atualmente.
“Avançamos nas pilhas iniciais que vão receber as primeiras toneladas de rejeitos filtrados através de um sistema de transporte com caminhões autônomos, ou seja, veículos não tripulados que vão descer pela futura estrada oeste. Então, alcançamos os primeiros marcos em 2025 e agora que já iniciamos a retomada após o período de chuvas. O nosso objetivo continua de iniciar a operação da pilha em 2028 e garantir essa integração futura entre a operação existente de Brucutu com o Tamanduá, fazendo essa ligação que vai levar o rejeito filtrado e nosso estéril para essa nova pilha”.
Empresas envolvidas no Tamanduá: Fidens, Sodep e frota Caterpillar.





