Eles raramente são aquilo que o eleitor imagina. O tema é antigo, recorrente, mas ganha nova força em períodos eleitorais, quando muitos cidadãos estão prestes a ser, mais uma vez, ludibriados por promessas políticas. São poucos os que realmente merecem crédito. Para muitos políticos, a mentira tornou-se instrumento de sobrevivência.
O roteiro é conhecido. O eleitor escolhe um candidato ao Senado ou à Câmara. O personagem aparece sério, com postura sóbria, discurso firme e ar reflexivo, como alguém profundamente comprometido com os grandes problemas do país. Independentemente do partido, domina a linguagem que o eleitor quer ouvir. Consegue, inclusive, convencer os mais céticos.
Mas, após eleito, o que se vê é o transformismo político.
Do discurso à incoerência após a eleição
O candidato muda. Não apenas nas palavras, mas no comportamento, nas alianças e, principalmente, nas posições que passa a defender. Aquilo que era bandeira de campanha desaparece. Em seu lugar, surgem discursos moldados por conveniências e interesses alheios ao eleitor.
Casos assim não são exceção. Há exemplos de candidatos a deputado que, ainda em campanha, eram vistos como legítimos representantes dos interesses populares. “É este”, diziam muitos eleitores, confiantes de que finalmente teriam voz no Parlamento.
Após a eleição, porém, o representante se revela outro. Passa a defender interesses antagônicos aos que pregava, adota a retórica do mercado financeiro e se torna porta-voz de bancos, bolsas e especuladores. O sistema, mais uma vez, colocou o homem certo no lugar certo, mas não para quem votou nele.
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Presidência da República: exceção que não se confirma
Seria razoável imaginar que, ao menos nas disputas pela Presidência da República, esse padrão fosse diferente. Afinal, trata-se do cargo mais alto da República, que deveria exigir honorabilidade, coerência e compromisso com o interesse público.
Na prática, não é o que ocorre.
Candidatos à Presidência são treinados para dizer aquilo que talvez não pensem — ou, quando pensam, fazem-no a partir de roteiros definidos por marqueteiros, estrategistas e grupos de poder. O discurso raramente nasce da convicção pessoal; nasce da conveniência eleitoral.
O eleitor percebe. Acompanha. Analisa. Mas, muitas vezes, permanece imobilizado, refém da engrenagem política e da arte do transformismo.
O eleitor como refém do sistema político
A frustração do eleitor não vem da falta de informação, mas da repetição do ciclo: promessa, eleição e ruptura. A política brasileira parece operar em um permanente estado de desalinhamento entre discurso e prática, corroendo a confiança nas instituições e aprofundando o distanciamento entre representantes e representados.
Nesse contexto, a democracia perde densidade, e o voto passa a ser visto menos como instrumento de transformação e mais como um ato de esperança resignada.
Uma frase que merece reflexão
Em artigo publicado na Folha de S.Paulo, ao analisar a proposta da nova legislação florestal, o físico Rogério Cezar de Cerqueira Leite sintetiza, em uma frase, uma reflexão que extrapola o debate ambiental e alcança o campo político e social:
“É preciso lembrar que, afinal, o homem também é espécie a ser preservada.”
Talvez preservar o homem — e a democracia — passe, antes de tudo, por exigir coerência, ética e responsabilidade daqueles que se propõem a governar.


