Com 235 km de tubulações e investimentos superiores a R$ 100 milhões, projeto foi concebido para levar água do rio São Francisco a municípios de uma região que vivia a expansão da mineração, energia e infraestrutura.
O avanço de novos projetos de mineração, energia e infraestrutura no sudoeste da Bahia colocou em evidência um problema antigo da região: a disponibilidade de água.
Em Guanambi e municípios vizinhos, períodos de racionamento já faziam parte da rotina de moradores enquanto novos investimentos começavam a modificar a economia local.
Foi nesse contexto que saiu do papel a Adutora do Algodão, sistema concebido para captar água do rio São Francisco e ampliar a segurança hídrica de municípios da região.
As obras começaram em caráter emergencial e, naquele momento, tinham conclusão prevista para junho de 2012.
Coordenado pela Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf) em convênio com a Empresa Baiana de Águas e Saneamento (Embasa), o projeto foi dimensionado para atender aproximadamente 226 mil pessoas.
Adutora do Algodão terá 235 km de tubulações
A infraestrutura prevista para a Adutora do Algodão contemplava aproximadamente 235 km de tubulações de diferentes diâmetros, além de seis reservatórios e seis estações de bombeamento.
Segundo as projeções divulgadas naquele período, o sistema teria capacidade de captação suficiente para atender à demanda regional de água potável pelas duas décadas seguintes.
As intervenções integravam a segunda fase do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).
O investimento nas obras era estimado em aproximadamente R$ 76 milhões, além de outros R$ 35 milhões já aplicados pela Codevasf na elaboração dos projetos básicos e na aquisição das tubulações.
Somados, os valores representavam mais de R$ 110 milhões destinados à implantação da infraestrutura hídrica.
Falta de água já limitava atividades na região
A deficiência hídrica não era um problema novo.
Municípios como Guanambi, Malhada, Iuiú, Palmas de Monte Alto, Candiba, Pindaí e Matina enfrentavam limitações no abastecimento, enquanto o crescimento da população aumentava a demanda.
Segundo Sérgio Antônio Coelho, então superintendente da Codevasf em Bom Jesus da Lapa (BA), a possibilidade de construir uma adutora já era discutida havia cerca de duas décadas.
“Há pelo menos 20 anos que pensamos na adutora como solução”, afirmou.
Até então, parte do abastecimento dependia do açude Ceraíma e da barragem Poço do Magro, ambos em Guanambi.
Os reservatórios possuíam capacidade estimada de armazenamento de 58 milhões de m³ e 39 milhões de m³, respectivamente, mas as chuvas da região da Serra Geral eram insuficientes para garantir o atendimento da demanda crescente.
“Nos últimos anos, tivemos que fazer racionamento de água e interromper o projeto Ceraíma, que levava irrigação para 110 agricultores”, relatou Coelho.
Água do São Francisco poderia liberar reservatórios para irrigação
A chegada da água captada no rio São Francisco também poderia alterar o uso dos reservatórios existentes.
Com a Adutora do Algodão assumindo parte do abastecimento humano, a expectativa era liberar água de Ceraíma e Poço do Magro para outras atividades.
Entre as possibilidades apontadas estavam a retomada da irrigação e o desenvolvimento de cadeias produtivas relacionadas à horticultura e à pecuária leiteira, além da manutenção de vazões em cursos d’água da região.
Dessa maneira, a obra não era vista apenas como solução para o abastecimento urbano.
A disponibilidade hídrica também começava a ser considerada uma infraestrutura necessária para sustentar o desenvolvimento econômico regional.
Moradores enfrentavam água a cada três ou cinco dias
Enquanto as obras avançavam, o impacto da escassez continuava presente na rotina da população.
Em determinados bairros, moradores relatavam receber água apenas a cada três dias.
“É uma dificuldade enorme até para beber. Quando chega à torneira, a gente tem de correr para lavar roupa, limpar a casa e encher os baldes”, contou Regiane Barbosa, moradora do bairro Monte Pascoal.
Em Ceraíma, Esmeraldina Santos relatava situação semelhante.
“Tem vezes que a água só chega de cinco em cinco dias, uma vez por semana, aqui em minha casa. Esperamos uma solução.”
Os relatos ajudam a dimensionar o impacto de uma obra de infraestrutura que, nos projetos e canteiros, era medida em quilômetros de tubulação, estações de bombeamento e milhões de reais, mas que chegaria à população de uma maneira muito mais simples: água disponível na torneira.
Desenvolvimento econômico aumentava pressão sobre a infraestrutura
Naquele período, o sudoeste baiano também começava a receber investimentos capazes de modificar a dinâmica econômica da região.
Mineração, geração de energia e infraestrutura ferroviária estavam entre os setores que avançavam no território.
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Para José Carlos Lélis Costa, então presidente da União dos Vereadores de Guanambi, a limitação no abastecimento poderia se transformar em uma barreira para esse processo.
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“Se a obra não fosse iniciada, o desenvolvimento da cidade e região poderia ser estrangulado”, afirmou.
O início da Adutora do Algodão ocorreu depois de aproximadamente dois anos de negociações envolvendo Governo da Bahia, Prefeitura de Guanambi, Codevasf, Embasa e representantes da sociedade civil.
As tubulações haviam sido adquiridas com recursos do PAC 1, mas atrasos relacionados a questões jurídicas e administrativas fizeram com que a execução fosse posteriormente incorporada ao PAC 2.
Mineração ganhava espaço em Caetité
Um dos vetores de transformação econômica estava na mineração.
Caetité, município vizinho a Guanambi, abriga uma importante operação brasileira de produção de concentrado de urânio, conduzida pelas Indústrias Nucleares do Brasil (INB).
Naquele período, a atividade também enfrentava questionamentos de parte da população relacionados à segurança ambiental e ao transporte de materiais.
A mineração integrava um conjunto maior de atividades que começava a elevar a importância econômica da região e, consequentemente, a demanda por infraestrutura adequada.
Região receberia complexo de energia eólica
A geração de energia representava outra frente de expansão.
Na região de Guanambi, haviam começado as obras de 14 parques eólicos, com investimentos projetados em aproximadamente R$ 1,17 bilhão.
O empreendimento da Renova Energia contemplava áreas de Guanambi, Caetité e Igaporã.
Naquele momento, a expectativa era de que aproximadamente mil proprietários rurais tivessem áreas arrendadas para implantação do complexo eólico.
A chegada dos projetos demonstrava como uma região historicamente associada à agropecuária começava a receber empreendimentos de maior escala ligados à energia.
Ferrovia Oeste-Leste completaria novo corredor de infraestrutura
Outro grande projeto previsto para atravessar a região era a Ferrovia de Integração Oeste-Leste (Fiol).
Com aproximadamente 1,4 mil km previstos no projeto original, a ferrovia deveria estabelecer uma ligação entre Figueirópolis (TO) e Porto Sul, em Ilhéus (BA).
De responsabilidade da Valec naquele período, o empreendimento ainda enfrentava etapas relacionadas ao licenciamento ambiental, mas sua perspectiva de implantação já mobilizava autoridades e agentes econômicos locais.
A ferrovia acrescentaria uma nova dimensão logística a uma região onde mineração e geração de energia avançavam.
Água como infraestrutura para o desenvolvimento
A Adutora do Algodão nasceu para solucionar um problema básico de abastecimento, mas sua implantação ocorreu em um momento no qual o sudoeste da Bahia enfrentava uma transformação econômica mais ampla.
De um lado estavam novos projetos de mineração, energia e transporte ferroviário.
Do outro, comunidades ainda conviviam com torneiras sem água durante vários dias.
Essa combinação evidencia uma questão central para o planejamento de infraestrutura: grandes investimentos produtivos dependem também da capacidade dos territórios de oferecer serviços básicos à população que vive e trabalha ao redor deles.
Ao captar água do rio São Francisco e transportá-la por centenas de quilômetros até municípios do semiárido baiano, a Adutora do Algodão buscava enfrentar um gargalo que poderia limitar tanto a qualidade de vida da população quanto o desenvolvimento econômico regional.
Fonte histórica: Estadão.
Reportagem original: Katja Polisseni, Salvador (BA).




