A Ferrovia de Mato Grosso avança pelo estado, com a conclusão de obras de artes especiais, como viadutos e pontes, além dos primeiros quilômetros de trilhos já fixados. A maior obra ferroviária em andamento no país, com investimentos de R$5 bilhões e cerca de cinco mil trabalhadores nos canteiros, deve ficar pronta em meados de 2026. Com quase toda a terraplenagem realizada, além de boa parte dos viadutos e pontes já entregues, a instalação de dormentes e trilhos avança até um quilômetro por dia.
Para acelerar ainda mais as obras, a Rumo, maior concessionária de ferrovias do Brasil, iniciou um novo projeto, a aplicação de machine learning e inteligência artificial, que está revolucionando o transporte sobre trilhos, trazendo melhorias significativas em manutenção preditiva, otimização de operações e segurança. Os avanços permitem que as operadoras ferroviárias aumentem a eficiência, prevejam falhas e gerenciem o fluxo de passageiros de maneira inteligente, conforme explica Gustavo Yoshio Matsubara, especialista da empresa e um dos autores do projeto.
“O uso da inteligência artificial foi fundamental para analisar as alternativas de traçado viáveis para tomada de decisão. Foram consideradas muitas variáveis, cada uma delas amarradas a um peso classificatório específico. Sem o uso da tecnologia como ferramenta, um estudo como este não se concretizaria no tempo disponível para execução”, conta.
Ao longo do desenvolvimento do projeto, foram realizadas investigações de campo que resultaram na consolidação de um banco de dados de sondagens distribuídas ao longo do traçado, com previsão da execução de mais de duas mil sondagens até a conclusão do programa. As sondagens geotécnicas constituem a principal fonte de informações para a caracterização do subsolo, determinantes para a definição das soluções de fundação e dos tratamentos geotécnicos. Entretanto, o tempo necessário para a obtenção dos resultados de campo estão disponíveis apenas em fases mais avançadas dos trabalhos, limitando a possibilidade de reavaliação do traçado e, em muitos casos, levando à adoção de soluções não otimizadas, especialmente em áreas com solos de baixa resistência, que demandam intervenções geotécnicas de elevado impacto econômico.
“A aplicação de técnicas de machine learning nos ajuda a explorar de forma sistemática os dados históricos de sondagens, permitindo a identificação de padrões geotécnicos relevantes e atuando como ferramenta de apoio à tomada de decisão em fases que ainda não há investigação geotécnica direta disponível. Essa abordagem possibilita a antecipação de informações críticas, reduz incertezas e amplia a capacidade de planejamento”, explica Gustavo.
Além dos benefícios técnicos e econômicos a iniciativa fortalece a cultura de inovação, impacta diretamente o meio ambiente e incorpora tecnologias avançadas como suporte à tomada de decisão em projetos de infraestrutura ferroviária.
“Em Mato Grosso, prioritariamente, o transporte é feito pelo setor rodoviário. Se a gente analisar a ferrovia, ela vai diminuir a emissão dos gases do efeito estufa por tonelada transportada em relação a rodovia. A sustentabilidade aliada à tecnologia é essencial para o desenvolvimento de uma malha ferroviária moderna e responsável. Com investimentos estruturais e parcerias público-privadas, o Brasil pode acelerar sua transição para um futuro mais conectado e inteligente”, finaliza Gustavo.
A FMT começou a ser construída em 2022 como autorização estadual, modelo que foge das amarras tradicionais de uma concessão comum. Diante da magnitude, o projeto foi dividido em três fases. A primeira fase, de Rondonópolis até um novo terminal que está sendo erguido entre os municípios de Dom Aquino e Campo Verde, tem 162 km e deve entrar em operação no começo do segundo semestre de 2026, a tempo de escoar a safra de milho em Mato Grosso.
As fases 2 e 3 vão levar os trilhos da Malha Norte para Nova Mutum e Lucas do Rio Verde, respectivamente, mas ainda não há data cravada para o início das obras. Um ramal para Cuiabá, também sem data certa, completa o projeto. Os traçados de engenharia estão sendo refinados.





